Fabricante de Florestas

RJ, 27 de Dezembro de 2007           
 
            Caro Fabricante de Florestas,
            Escrevo de um lugar que apresenta cores novas aos meus ares (des) cerrados. Aqui, onde coisas inesperadas acontecem, as pessoas têm o hábito de aplaudir o pôr-do-sol. Você, que tem nascimentos ao contrário, se emocionaria sem chorar. Eu sou o contrário: sempre choro     quando me emociono. Isso, espero um dia poder demonstrar a você, para que mais maneiras de eternizar os momentos felizes sejam instaladas entre nós, humanos apavorados de amor.
            Estive na sua cidade mas não consegui falar com você. Fiquei sabendo que estava viajando pelo litoral da Bahia e tive a certeza de que estavas feliz.
            Sabe, caro Fabricante, a vida nesse momento exato e pretendente, faz-me ter perspectivas de dias de paz. Cheguei ontem aqui na cidade maravilhosa e  alguns amigos me acompanham. Ainda não estão todos juntos é verdade, mas até aqui, as metades foram sendo suportadas e pelo caminho, conhecemos outros tão belos quantos os originais.     
            Esse lugar me lembra sua arte. O Rio de Janeiro produz em mim uma sensação única que jamais nenhum fabricante de máquinas poderá fazer igual. E depois de estar aqui, fica alojado no meu entendimento um sentimento de desapego e a morte se anuncia de forma furta-cor. Aqui, nesse lugar cheio de espírito, eu sinto que Agnes deseja a morte como uma lagarta deseja ferozmente romper o casulo e criar asas. Fico pensando profundamente o que a máquina quer romper em você e isso causa em mim uma sensação absurda de fumaça. Enviei a você uma mensagem falando sobre isso, mas deixa de lado essas questões da ilusão. O que eu quero mesmo é finalizar essa libertinagem de revoadas solitárias. O parto, apesar de ter hoje em dia data marcada previamente na agenda, sem ensaios, pode ser um acontecimento imensamente prazeroso. Mas mesmo tendo essa consciência, incrivelmente, sinto as dores dele. Estou tendo respirações aceleradas e de efeito dormente.           
            Querido Fabricante de Florestas, você ficaria extasiado com as luzes da favela que se avista aqui em Ipanema. Mal o sol se põe e surgem no céu máquinas iluminadas em queda, deixando um rastro longo de luz anunciando que o morro se iluminará de dentro para fora como um grande fenômeno de bioluminescência. Nesse momento, todos aplaudem ainda mais o grande fim do dia, o minuto eterno da partida do sol e a noite vai anunciando que tudo tem uma tendência à perfeição, banhando e limpando as mãos que ora trabalharam, ora desfrutaram desse lugar lindo de viver.
            Sabe, enquanto estou aqui no Rio, reflito sobre quando te conheci. Ando pensando ultimamente que se talvez os planos tivessem a calma da velhice, nós estaríamos menos cansados de esperar pelo amor. Mas se tivesse descuidado daquele momento, não teria essa paz de pensar em você sem uma certa carnalidade. Você surgiu tão bonito e calado, que aquilo de estar encantada pelas cores das suas fábricas, fez renascer em mim o gosto pela arte. Estou suspeitando de outros raios tentando ultrapassar as paredes bordadas dos casulos de todos os nossos seres guardados. E suspeito que tenha sido a presença dos seus desenhos naqueles dias que rebelaram minha percepção.
            Amanhã partirei para uma praia não muito distante de Paraty. Dizem que existe uma mata Atlântica belíssima ao redor da praia e que os dias lá, indicam quais cores serão as do próximo momento. Prometo que escreverei a você contando sobre o lugar.
            Bem, eu espero que você inaugure quantas máquinas forem necessárias para que aceite o amor se instalar novamente nos seus dias. Por favor, depois me dê notícias sobre sua exposição no Chile, e se tiver tempo, traga-me algum objeto não identificado de lá.
            Para terminar e já aproveitando a época, desejo um ano produtivo e de boas colheitas.
           
            Afetuosamente,
 
            Agnes Amarantine

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